Museus e monumentos sofrem edegradam-se com a tempestadeKristin

Espelho que faz parte do património do Palácio Nacional de Mafra, após a tempestade Kristin D.R.

Christiana Martins 30 janeiro 2026 18:53

Janelas tapadas com contraplacados como forma de tentar evitar o pior, escadas constantemente molhadas com o risco de provocar acidentes graves, paredes com pinturas patrimoniais a escorrer, espelhos históricos enevoados como se refletissem fantasmas de um tempo sombrio – as salas do Palácio Nacional de Mafra foram danificadas pela tempestade Kristin.

O pior, contudo, alerta o diretor Sérgio Gorjão, é que a chuva dos últimos dias apenas agrava uma degradação crónica que se arrasta e que se tornou ainda pior desde que os circuitos de visitação foram alterados, de forma a permitir a visita articulada do Palácio e do Museu Nacional da Música, ambos integrados nos complexo do Real Edifício de Mafra.

Questionada sobre os danos sofridos pelo Palácio Nacional de Mafra, a Museus e Monumentos d Portugal (MMP) – empresa pública que tutela esta área – comunica que o edifício “foi afetado, ao nível de infiltração de água e irregularidade no fornecimento de energia, com condicionamentos pontuais no acesso”.

Para o diretor do palácio, no entanto, a situação é outra e arrasta-se há mais tempo. “Há entrada abundante de água nas salas de visitação, problemas crónicos nas janelas, que tentamos mitiga com a colocação de plásticos, limpando as calhas e gárgulas”, afirma Sérgio Gorjão. Garante que já manifestou estas necessidades à tutela”, até porque, “uma das janelas da reserva das pinturas implodiu há meses”.

“As condições ambientais do palácio foram profundamente alteradas pela falta de um guarda-vento à entrada e, principalmente, pela introdução do novo circuito de visitação, que abriu uma série de portas, criando correntes de ar prejudiciais às condições de trabalho e à conservação dos bens”, sublinha Sérgio Gorjão. “A entrada no palácio deveria de continuar a ser feita pela porta principal, como acontecia anteriormente”, completa do diretor de Mafra, património mundial da Unesco desde 2019.

O diretor resume a situação, dizendo que “independentemente das intempéries recentes, o palácio tem problemas de conservação e manutenção crónicos, mas alguns são emergentes do ponto de vista da segurança, e da conservação, do conhecimento das entidades administrativas”. E acrescenta: “Não será falta de sensibilidade, mas, não havendo solução para as nossas chamadas de atenção recorrentes, os problemas e urgências avolumam-se.”

“Se não tivermos uma ação mais proativa e preventiva (e até curativa), nunca haverá capacidade de resolução. A falta de equipa permanente de manutenção e um plano de obras regular (além do PRR), nunca dará bons resultados. Não sei se é falta de capacidade técnica, recursos humanos ou financeiros, mas os problemas não se resolvem só com boa vontade. É necessário que a direção que tem este âmbito de ação tenha efetiva capacidade para resolver.

Recordo que os museus e monumentos não têm autonomia administrativa e financeira, nem recursos técnicos especializados, por isso dependem dos serviços centrais”, conclui Sérgio Gorjão. “Bem sei que a nossa casa é grande, mas isso não é novidade, desde há quase três séculos”.

Considerado o mais importante monumento do barroco português, o palácio tem uma biblioteca que é considerada uma das mais belas do mundo e que possui cerca de 30.000 volumes, além de na basílica albergar ainda um conjunto único de seis órgãos históricos, desenhados para serem tocados em simultâneo.

O Expresso contactou também Edward Ayres de Abreu, diretor do Museu da Música, inaugurado em novembro de 2025. Segundo este responsável, o museu não foi afetado pela tempestade Kirstin, tendo sofrido apenas algumas horas de corte de energia, a qual terá sido “logo reposta”.

Encerramentos e danos

A MMMP, organismo que tutela diretamente 37 museus, monumentos e palácios nacionais, entretanto, divulgou esta sexta feira o encerramento de quatro instituições.

“Na sequência das condições meteorológicas adversas registada nos últimos dias em Portugal, encontram-se temporariamente encerrados ao público o Mosteiro da Batalha, o Museu Nacional de Conímbriga, o Convento de Cristo, em Tomar, e o Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, neste último caso devido às condições de segurança no parque envolvente (Parque D. Carlos I).”

A MMP afirma que “registaram-se danos patrimoniais, nomeadamente ao nível das fachadas e telhados, assim como a queda de árvores”, acrescentando ainda que “encontram-se já no terreno equipas técnicas para proceder ao levantamento exaustivo dos estragos causados e aferir as condições necessárias para a reabertura dos espaços em segurança”.

Após essa avaliação, a MMP diz ainda que “serão desencadeadas as intervenções de manutenção e conservação necessárias, em articulação com a tutela e com as entidades competentes” e que “a reabertura dos espaços será comunicada assim que estejam reunidas todas as condições de segurança”